Total de visualizações de página

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Colecionador de princípios.




 Fincou pé à ignorância e declarou que a solidão em nada o incomodava.
Se as palavras não fugissem vez em quando, o som de sua voz seria sempre um mistério. Os mais próximos lhe disseram que tamanha privação da vida era igualmente um atentado a sua própria existência. A consideração em nada lhe valeu, então, um a um foram desistindo das advertências. Primeiro os amigos, dos poucos que tinha, e por fim os parentes.
Ganancioso que era, esquecera-se de partilhar.
Não possuía espelhos em casa, seu reflexo era projetado por seus diplomas. A busca pela perfeição tornou-se compulsiva, obsessiva, e gradativamente ia perdendo sua essência.
Entupiu-se de trabalho para aumentar o ego de sua eficiência e manteve o ritmo até dar-se por conta da senescência. Os ossos não lhe eram mais sãos, e outros tantos problemas apareceram.  Ao ressentir-se da saúde resolveu que uma companhia lhe faltava, mais para prestar serviço que de fato companhia. Arrogante, não fora capaz de conquistar, comprou uma página inteira de jornal e escreveu suas exigências. Não obteve respostas.
Apegado à sua alto-suficiência aposentou-se do ofício. Da vida já não exercia, e nem lhe restava mais nada. 

domingo, 9 de setembro de 2012

Prece

Raul Seixas Eterno... Traga sabedoria aos tantos compositores de

 Uni(co)verso, de monossílabos, assopre-os uma canção que preste,

 ensine-os a importância da Flor do Lácio e nos livre dessa bosta 

que têm chamado de música.

Primeiros Votos



O que a princípio era secreto, tornou-se evidente. E o segredo não fora guardado. A cada conto um reconto, perpetuando assim com os estragos. Sem nenhum consentimento, e pouco menos sentimento de respeito pelo próximo o caso seguiu abrindo cicatrizes velhas e trazendo novas feridas como companhia.
De início pensaram ser um mal entendido, um erro de percurso. Itinerário mal calculado. As evidências e consequências causadas por tal ato abriram-lhe os olhos e indicaram que tudo havia sido premeditado. O intuito era mesmo causar mal-estar, e o intruso só podia ser alguém de dentro de casa.
As brigas então cessaram. Chegaram a um entendimento parcial.
_ Deixemos o passado, no passado!
A Postura santa a qual assumiram despertou desconfiança em ambos os lados. Sofrivelmente com o sentimento de culpa iniciaram uma investigação sigilosa. Ninguém poderia saber, pois como certo existia o velho ditado. Em brigas de marido e Mulher ninguém deve meter a colher.
Colhendo informações aqui, outras acolá, o peso na consciência crescia inda mais, pois, os boatos se compunham como falsos. E ao ritmo que seguiam as composições, se enroscavam ainda mais.
O elo fraco não suportou a pressão. Pediu ajuda a alguém que julgara ser de sua total confiança. Decisão miserável!
O que a princípio era secreto tornou-se evidente. E o segredo não fora guardado. A cada conto um reconto, perpetuando assim com os estragos. Sem nenhum consentimento, e pouco menos sentimento de respeito pelo próximo o caso seguiu abrindo cicatrizes velhas e trazendo novas feridas.
A discussão não pode ser evitada. Houve o confronto.
Constataram que realmente não se pode confiar nas pessoas, mas, tão jovens que são o intruso responsável por tudo ficou evidente, eram seus próprios medos e inseguranças expostos à  fragilidade e incerteza de poucos meses de casados.
E o passado não ficou no passado. A temporada de colégio e festas veio junto com os votos de casamento e inexperiência de seus 18 anos.

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Inventei de desenhar.

Não sou bom desenhista, só bom sonhador, utópico quem sabe, para muitos, louco. O que vale é com que realmente me importo!




sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Canção de Travessia



Memórias cegas, imagens turvas
minha mente perturbada e eu não sei em que acreditar.
Desconhecidos. Palpites, certos?
São dúvidas frequentes que terei que carregar.

E um cansaço se apresenta,
os fantasmas voam pelo espaço, pelas órbitas
de minha indecisão.
O que é certo ou o que é errado?
Cada caso é um caso, tem um "Q" particular.

Não quero ficar nessa casa,
pois efêmera é essa casca.
Não quero ficar nessa casca,
se acaso desaba essa casa!

E os fantasmas sambam,
ao som da desgraça que lhes é alheia.
E aos olhos, me marcam as lágrimas dessa tragédia.

















Post especial, à pedido. 
Obrigado por vir sempre aqui, peço licença para citar seu nome (Anderson Cardoso).




terça-feira, 24 de julho de 2012

Beata



Atirou a primeira pedra alegando não ter pecados. O incômodo em momento algum apareceu e não se contentando com o feito tratou logo de causar mais estragos. A língua afiada como adaga se fincou ao coração da pobre vítima que em nada se defendia, em nada retrucava. 
O que se supõe é que não se faça caso em teto sagrado e que beatos estão tão próximos de Deus quanto de sua misericórdia em termos de sentimento pelo próximo. O engano fora apresentado advindo do discurso da humana sem pecados, o véu que lhe cobria o rosto caiu ao chão revelando sua face nefasta, prejudicial, tóxica. Via-se o músculo subir e descer no centro da caverna do diabo que tornava sua boca.
Tornou-se impossível contrair os pulmões e respirar. Quem estava mais próximo da cobra peçonhenta sentia a saliva queimar ao pescoço e em outras partes a qual pousavam.
_ Deus nos livre e guarde desse e de outros pecados. Persistia com seu discurso funesto. _ Luxúria, avareza, soberba...
Tamanho o desconforto a vítima reagiu. Um golpe certeiro, cortou-lhe a língua. Não fora cruel o crime, fora unanime, todos os presentes consentiram. Ainda pensaram na possibilidade de ser um presente, entregar-lhe o silêncio seria um ótimo embrulho para a paz.
Imobilizada que estava, restava-lhe ouvir o desagradável. Depois fora deixada a sós.
As reflexões foram emergindo simultaneamente sem dar-lhe tempo para reconsiderar e reformular suas concepções e atitudes controversas. Não conseguia pronunciar um pedido de desculpas, estava enterrada em suas angustias e erros. Percebera tarde de mais que em condição de reles humana estava sujeita ao pecado que tanto alegara não ter, às armadilhas da vida, ou como preferia dizer, "de satanás". Restava-lhe agora se aproximar com verdade de Deus e esperar dele sua misericórdia.

sábado, 7 de julho de 2012

Areia movediça




Dois jaziam num buraco fundo de lama, pelo meio encobertos e sem qualquer sinal de ajuda para removê-los da morte vagarosa, mas ávida, que os vigiavam.  Restaram-lhe um ao outro, apenas, de asilo, o rosto de um refletido no olhar do outro e vice-versa via-se o desespero. Um diálogo de escape fora iniciado por menos vontade que opção.
_ Será possível? Morrermos assim sem ninguém? Atirou um contra outro.
_ Não desdenhe de seu companheiro de morte.
_ Não faço desdém. É a mais pura verdade.
Calaram-se em falta do que dizer! Minutos a mais se passaram e a lama já lhes alcançava o peito.
Afirmando que não entregaria a vida à lama, começou a se debater o que mais aflito parecia.
_ Se ficar parado, demora mais para afundar.
_ Para você é fácil falar, a lama parece repeli-lo. 
_ Talvez porque eu esteja quieto. Provocou.
_ Talvez seja sujo de mais até para morrer na lama.
_ Pode ser.
É como uma impureza saindo do corpo em forma de espinha.
O incomodo pesou sobre o outro, empurrando-o mais depressa para o submerso. Nem assim deixou de se importar com a frieza do companheiro de morte. Importunando-o.
Cada vez mais aumentava o tom de voz atirando palavras inconformadas. Perdendo o controle, debatendo-se, até que a lama o consumiu por completo.
Ainda imerso, esperou que as bolhas parassem de subir a superfície.
_ Morto! Única palavra que se atreveu em dizer ao outro que agora já não mais o poderia ouvir.
Calmamente levou um dos braços a frente, firmou a mão aos cabelos do corpo já atolado e puxou-o para si. Usou-o para sua fuga.
Saindo do buraco, limpou-se do cheiro de morte e lamentou pelo outro.
_Tivesse se preocupado em sair do buraco ao invés de ficar reparando... poderia ter se salvado.
Deu as costas e partiu para longe, deixou ali apenas o silêncio da morte.