Dois jaziam num buraco fundo de lama, pelo meio encobertos e sem
qualquer sinal de ajuda para removê-los da morte vagarosa, mas ávida, que os
vigiavam. Restaram-lhe um ao outro,
apenas, de asilo, o rosto de um refletido no olhar do outro e vice-versa via-se
o desespero. Um diálogo de escape fora iniciado por menos vontade que opção.
_ Será possível? Morrermos assim sem ninguém? Atirou um contra outro.
_ Não desdenhe de seu companheiro de morte.
_ Não faço desdém. É a mais pura verdade.
Calaram-se em falta do que dizer! Minutos a mais se passaram e a lama já
lhes alcançava o peito.
Afirmando que não entregaria a vida à lama, começou a se debater o que
mais aflito parecia.
_ Se ficar parado, demora mais para afundar.
_ Para você é fácil falar, a lama parece repeli-lo.
_ Talvez porque eu esteja quieto. Provocou.
_ Talvez seja sujo de mais até para morrer na lama.
_ Pode ser.
_ É como uma impureza saindo do corpo em forma de espinha.
O incomodo pesou sobre o outro, empurrando-o mais depressa para o
submerso. Nem assim deixou de se importar com a frieza do companheiro de
morte. Importunando-o.
Cada vez mais aumentava o tom de voz atirando palavras inconformadas.
Perdendo o controle, debatendo-se, até que a lama o consumiu por completo.
Ainda imerso, esperou que as bolhas parassem de subir a superfície.
_ Morto! Única palavra que se atreveu em dizer ao outro que agora já não mais o poderia ouvir.
Calmamente levou um dos braços a frente, firmou a mão aos cabelos do
corpo já atolado e puxou-o para si. Usou-o para sua fuga.
Saindo do buraco, limpou-se do cheiro de morte e lamentou pelo outro.
_Tivesse
se preocupado em sair do buraco ao invés de ficar reparando... poderia
ter se salvado.
Deu as costas e partiu para longe, deixou ali apenas o silêncio da morte.